Na Gesto os bloggers fizeram incursão no mundo real

Na noite de 30 de Setembro, hora a que
muitos bloggers editam os seus conteúdos, o debate Bloggar a Cidade
trouxe à Gesto alguns dos autores dos blogs mais conhecidos pela sua
escrita sobre o Porto (da direita para a esquerda): A Baixa do Porto, OsMeusApontamentos, A Quinta Cidade, O
Verde e o Cinzento, a moderadora, João Teixeira Lopes e ACDP. A SSRU, «sociedade secreta» de nome e anónima por opção, enviou comentários por escrito.
Que motivações?
Tiago Azevedo Fernandes (TAF) de A
Baixa do Porto explicou como começou a bloggar em 2004: a
discussão em torno do PDM no Sítio da Câmara levou-a perceber
que fazia falta um espaço que desse continuidade à vontade de
intervir destes cidadãos.
José Ferraz Alves – da Associação
de Cidadãos do Porto – avançou a sua motivação : «preciso
de escrever para me entender melhor». Escreve correntemetne sobre a
gestão autónoma do aeroporto e, na linha de Yunus, sobre um
modelo social para o Porto, agora estendem-se ao regionalismo e aos
problemas do interior. Frisou que registou a reacção imediata da
comunicação social tradicional que começou também daí a beber
informação.
Para
Ricardo Sequeiros Coelho a criação blog é uma experiência de
cidadania. Através de O
Verde e o Cinzento – pretende dar a conhecer o património
histórico. Há poucos portuenses que conheçam bem a sua
cidade, dado que fazer turismo na cidade própria é actividade rara. Fez
notar que a atractividade dum blog é muito interessante e deu como exemplo de
fórum sobre a cidade o caso de A
Baixa do Porto. Aí proporciona-se um conhecimento da cidade que
raramente se consegue doutra forma, transmitido na primeira pessoa,
não digerido pelo obectivismo mediático, mas também com carácter
subjectivo, pessoal.
Vítor
Silva comentou que escrevia OsMeusApontamentos para referência
futura, como notas pessoais e que envia as coisas sobre o Porto para
A Baixa do Porto. Mantém também o blog Porto em conversa, porque
entende que é útil registar em aúdio online palestras
e outros eventos.
David
Afonso falou em nome da 5ª
Cidade, referindo que o tema da reabilitação urbana é o seu
cerne e que pretendem contribuir para a formação de opinião e para
um repositório informativo. Escrevem por isso vários artigos
técnicos, sendo a reflexão associada à escrita uma motivação
também para si.
Os ssru, sociedade secreta de reabilitação urbana declararam por escrito que «assistindo passivamente à
extinção das poucas instituições que ainda zelavam pelo CH (como
foi o caso da FDZHP), considerámos importante o nascimento de um
“sítio” onde se pudesse intervir e lutar pela Salvaguarda do Património
Mundial, não só o edificado ou o cultural, o económico, mas
sobretudo o humano».
Opinião pública feita a bloggar
João
Teixeira Lopes, partindo do conceito de esfera pública, na tradição
habermasiana, fez notar como aqui a co-presença física já não é
necessária para atingir consensos, recorrendo os blogs a uma
linguagem com ícones e especificidades próprias. A
falsa oposição entre real e virtual fica desmentida pelas redes de
sociabilidade dos jovens, por exemplo. A relação entre novos e
velhos media verifica-se até nos mecanismos de consagração, caso
de Pacheco Pereira que tem presença reciprocamente reforçada duns
para outros. Aqui, contudo, a polémica, a crítica, são notas
características. Procura-se a divergência e a pluralidade, não se
evitam, ao contrário das esferas mais institucionais.
A
propósito da liberdade de expressão nos media recordou a postura
actual da autarquia que exige protocolos de quem recebe apoios para
que abdique de a criticar. Os próprios media aparecem ter algumas
reservas em emitir opiniões sobre esta matéria. Grandes pressões sofreram também certos jornalistas, um que foi visto a participar numa manifestação, outro por apoiar Elisa Ferreira, por exemplo.
«Já referi isto mas nunca é publicado». Daí que os novos media
tenham um papel decisivo.
Os ssru escreveram: «não aspiramos a grandes e radicais mudanças, instantâneas, mas antes, de uma forma cimentada e duradoura, a pequenas mudanças que de facto alterem o dia‐a‐dia daqueles que mais precisam de ajuda, desmistificando ainda esta forma de intervir na cidade como se fosse um couto privado de alguns».
Na Internet, com toda a liberdade de expressão?
Ainda
sobre o tema dos constrangimentos ou liberdade de expressão nos
blogs foram-se ouvindo outras opiniões.
O
caso mais extremo foi o da ssru
- sociedade secreta de reabilitação urbana que escolheu o
anonimato para a sua escrita precisamente porque «o contexto
político e económico não se afigura o mais propício para que
vozes se levantem a criticar seja o que for preciso». A sua
participação no debate fez-se assim por escrito.
TAF
aduziu o seguinte argumento: «a cidade do Porto é uma cidade
encravada em muitas coisas», daí que tenha decidido disponibilizar
a ferramenta de que dispõe a contributos de outras pessoas,
preocupado que está com a eficácia do debate. O que levou até
Catarina Martins a perguntar, da assistência «quem é que aqui já
não publicou alguma coisa na Baixa do Porto?».
José
Silva esclareceu: «como sou informático para mim isto são
ferramentas, interessa-me a eficácia, há mecanismos de quem lê
para gerir as suas leituras. Se os conteúdos me interessarem eu vou
visitar». E acrescentou que esta participação pode ser um programa
para aprender a comunicar.
Da
5ª Cidade veio opinião diferente: «não acho que seja muito
democrático [este meio dos blogs], são as elites que estão aqui».
Da ACDP a ideia de que os blogs actuam também «como escola de
formação, com as críticas que ajudam a democracia».
De O Verde e
o Cinzento um exemplo concreto, de oposição à «política de
silêncio da Câmara em relação aos grandes projectos da cidade,
como o Palácio e o Aleixo»: o projecto do Palácio tornou-se
público porque, trazido da Assembleia pelo deputado municipal José
Castro, foi por si passado de mão em mão, colocado no blog do
Movimento de Defesa dos
Jardins do Palácio, caso contrário talvez ainda
hoje não fosse conhecido.
Debate sim, e intervenção?
Da
assistência seguiram-se mais questões que animaram o debate. Alda Macedo
questionou-se se esta forma de intervenção levaria por si só à
acção, «em política medimos a eficácia pela capacidade de
transformação», embora, sublinhou, não desvalorize, pelo
contrário, este papel informativo. E questionou também a
universalidade do acesso às tais ferramentas informáticas que
suportam estes serviços.
Anderson,
presidente da ANSOL, tomou a palavra para lembrar que as cidades não
são são urbanismo, são pessoas, é necessário preocupar-se com a
população, «partidos que não entendam essa vertente da cidadania
não entendem nada da vida».
Vítor
Silva concordou que blogs servem para qualificar a opinião «mas
depois se eu quiser fazer algo não é pela Internet», há que
exercer pressão.
David
Afonso defendeu que «discutir é já fazer democracia». E alvitrou, ironicamente,
que a organização tinha tido uma grande falha ao esquecer-se de
convidar «o maior blogger da cidade, que é o Dr, Rui Rio!», dado que
foi nisso que ele converteu o Sítio da câmara.
Cristina
Andrade citou o caso do FERVE que tem vindo a desenvolver actividade
e intervenção através dos blogs, como o caso da pressão a
propósito das multas injustas aplicadas aos recibos verdes que,
depois de «emails que inundaram as caixas de correio da Assembleia
da República», levou à alteração dessa decisão. Explicou que o
blog tem servido como «forma muito eficaz de pressão e formou rede
de pessoas que se mobilizaram para participar».
Alda
Macedo lembrou que no pico das acções dos professores
isso também aconteceu. «Falar de política de cidade tem
muito a ver com apropriação do espaço urbano», o próprio
referido mau funcionamento da Assembleia Municipal só continuará a
ser a bagunça que é enquanto os cidadãos não exigirem mudança», opinou.
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