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30-Set-2009

Na Gesto os bloggers fizeram incursão no mundo real

 

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Na noite de 30 de Setembro, hora a que muitos bloggers editam os seus conteúdos, o debate Bloggar a Cidade trouxe à Gesto alguns dos autores dos blogs mais conhecidos pela sua escrita sobre o Porto (da direita para a esquerda): A Baixa do Porto, OsMeusApontamentos, A Quinta Cidade, O Verde e o Cinzento, a moderadora, João Teixeira Lopes e ACDP. A SSRU, «sociedade secreta» de nome e anónima por opção, enviou comentários por escrito.

 

Que motivações?

Tiago Azevedo Fernandes (TAF) de A Baixa do Porto explicou como começou a bloggar em 2004: a discussão em torno do PDM no Sítio da Câmara levou-a perceber que fazia falta um espaço que desse continuidade à vontade de intervir destes cidadãos.

José Ferraz Alves – da Associação de Cidadãos do Porto – avançou a sua motivação : «preciso de escrever para me entender melhor». Escreve correntemetne sobre a gestão autónoma do aeroporto e, na linha de Yunus, sobre um modelo social para o Porto, agora estendem-se ao regionalismo e aos problemas do interior. Frisou que registou a reacção imediata da comunicação social tradicional que começou também daí a beber informação.

Para Ricardo Sequeiros Coelho a criação blog é uma experiência de cidadania. Através de O Verde e o Cinzento – pretende dar a conhecer o património histórico. Há poucos portuenses que conheçam bem a sua cidade, dado que fazer turismo na cidade própria é actividade rara. Fez notar que a atractividade dum blog é muito interessante e deu como exemplo de fórum sobre a cidade o caso de A Baixa do Porto. Aí proporciona-se um conhecimento da cidade que raramente se consegue doutra forma, transmitido na primeira pessoa, não digerido pelo obectivismo mediático, mas também com carácter subjectivo, pessoal.

Vítor Silva comentou que escrevia OsMeusApontamentos para referência futura, como notas pessoais e que envia as coisas sobre o Porto para A Baixa do Porto. Mantém também o blog Porto em conversa, porque entende que é útil registar em aúdio online palestras e outros eventos.

David Afonso falou em nome da 5ª Cidade, referindo que o tema da reabilitação urbana é o seu cerne e que pretendem contribuir para a formação de opinião e para um repositório informativo. Escrevem por isso vários artigos técnicos, sendo a reflexão associada à escrita uma motivação também para si.

Os ssru, sociedade secreta de reabilitação urbana declararam por escrito que «assistindo passivamente à extinção das poucas instituições que ainda zelavam pelo CH (como foi o caso da FDZHP), considerámos importante o nascimento de um “sítio” onde se pudesse intervir e lutar pela Salvaguarda do Património Mundial, não só o edificado ou o cultural, o económico, mas sobretudo o humano».

 

Opinião pública feita a bloggar

bloggers3.jpgJoão Teixeira Lopes, partindo do conceito de esfera pública, na tradição habermasiana, fez notar como aqui a co-presença física já não é necessária para atingir consensos, recorrendo os blogs a uma linguagem com ícones e especificidades próprias. A falsa oposição entre real e virtual fica desmentida pelas redes de sociabilidade dos jovens, por exemplo. A relação entre novos e velhos media verifica-se até nos mecanismos de consagração, caso de Pacheco Pereira que tem presença reciprocamente reforçada duns para outros. Aqui, contudo, a polémica, a crítica, são notas características. Procura-se a divergência e a pluralidade, não se evitam, ao contrário das esferas mais institucionais.

A propósito da liberdade de expressão nos media recordou a postura actual da autarquia que exige protocolos de quem recebe apoios para que abdique de a criticar. Os próprios media aparecem ter algumas reservas em emitir opiniões sobre esta matéria. Grandes pressões sofreram também certos jornalistas, um que foi visto a participar numa manifestação, outro por apoiar Elisa Ferreira, por exemplo. «Já referi isto mas nunca é publicado». Daí que os novos media tenham um papel decisivo.

Os ssru escreveram: «não aspiramos a grandes e radicais mudanças, instantâneas, mas antes, de uma forma cimentada e duradoura, a pequenas mudanças que de facto alterem o dia‐a‐dia daqueles que mais precisam de ajuda, desmistificando ainda esta forma de intervir na cidade como se fosse um couto privado de alguns».

 

Na Internet, com toda a liberdade de expressão?

Ainda sobre o tema dos constrangimentos ou liberdade de expressão nos blogs foram-se ouvindo outras opiniões.

O caso mais extremo foi o da ssru - sociedade secreta de reabilitação urbana que escolheu o anonimato para a sua escrita precisamente porque «o contexto político e económico não se afigura o mais propício para que vozes se levantem a criticar seja o que for preciso». A sua participação no debate fez-se assim por escrito.

TAF aduziu o seguinte argumento: «a cidade do Porto é uma cidade encravada em muitas coisas», daí que tenha decidido disponibilizar a ferramenta de que dispõe a contributos de outras pessoas, preocupado que está com a eficácia do debate. O que levou até Catarina Martins a perguntar, da assistência «quem é que aqui já não publicou alguma coisa na Baixa do Porto?».

José Silva esclareceu: «como sou informático para mim isto são ferramentas, interessa-me a eficácia, há mecanismos de quem lê para gerir as suas leituras. Se os conteúdos me interessarem eu vou visitar». E acrescentou que esta participação pode ser um programa para aprender a comunicar.

Da 5ª Cidade veio opinião diferente: «não acho que seja muito democrático [este meio dos blogs], são as elites que estão aqui».

Da ACDP a ideia de que os blogs actuam também «como escola de formação, com as críticas que ajudam a democracia».

De O Verde e o Cinzento um exemplo concreto, de oposição à «política de silêncio da Câmara em relação aos grandes projectos da cidade, como o Palácio e o Aleixo»: o projecto do Palácio tornou-se público porque, trazido da Assembleia pelo deputado municipal José Castro, foi por si passado de mão em mão, colocado no blog do Movimento de Defesa dos Jardins do Palácio, caso contrário talvez ainda hoje não fosse conhecido.

 

Debate sim, e intervenção? 

Da assistência seguiram-se mais questões que animaram o debate. Alda Macedo questionou-se se esta forma de intervenção levaria por si só à acção, «em política medimos a eficácia pela capacidade de transformação», embora, sublinhou, não desvalorize, pelo contrário, este papel informativo. E questionou também a universalidade do acesso às tais ferramentas informáticas que suportam estes serviços.

Anderson, presidente da ANSOL, tomou a palavra para lembrar que as cidades não são são urbanismo, são pessoas, é necessário preocupar-se com a população, «partidos que não entendam essa vertente da cidadania não entendem nada da vida».

Vítor Silva concordou que blogs servem para qualificar a opinião «mas depois se eu quiser fazer algo não é pela Internet», há que exercer pressão.

David Afonso defendeu que «discutir é já fazer democracia». E alvitrou, ironicamente, que a organização tinha tido uma grande falha ao esquecer-se de convidar «o maior blogger da cidade, que é o Dr, Rui Rio!», dado que foi nisso que ele converteu o Sítio da câmara.

Cristina Andrade citou o caso do FERVE que tem vindo a desenvolver actividade e intervenção através dos blogs, como o caso da pressão a propósito das multas injustas aplicadas aos recibos verdes que, depois de «emails que inundaram as caixas de correio da Assembleia da República», levou à alteração dessa decisão. Explicou que o blog tem servido como «forma muito eficaz de pressão e formou rede de pessoas que se mobilizaram para participar».

Alda Macedo lembrou que no pico das acções dos professores isso também aconteceu. «Falar de política de cidade tem muito a ver com apropriação do espaço urbano», o próprio referido mau funcionamento da Assembleia Municipal só continuará a ser a bagunça que é enquanto os cidadãos não exigirem mudança», opinou.

 
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